Michel Löwy

– Na medida em que temos um governo de centro-esquerda no poder, as críticas à esquerda tendem por vezes a ser aproximadas das críticas à direita. Em que medida é possível criticar o governo federal ou o PT sem deixar de reconhecer os avanços sociais dos últimos anos?

Acho não só possível como necessário criticar a politica do governo federal de um ponto de vista de esquerda, antineoliberal e anticapitalista,  que obviamente nada tem em comum com as criticas da direita,  que se concentram na “incompetência” (??) ou “corrupção” do governo – como se os governos da direita não fossem tão ou mais corruptos.  Isto não significa ignorar os progressos sociais dos últimos anos, os programas de luta contra a fome e a pobreza, etc;  não se pode negar que os governos de Lula e Dilma se distinguem,  deste ponto de vista,  dos equivalentes da direita (Cardoso !).  Mas se trata de um governo social-liberal, isto é, que respeita o “Consenso de Washington” e as regras fundamentais do neoliberalismo, tendo ao mesmo tempo uma preocupação social com os pobres.  O principio fundamental deste governo é de fazer o máximo possível a favor dos mais pobres, com a condição de não mexer nos privilégios dos mais ricos… O resultado é que, por exemplo,  não houve reforma agrária,  uma promessa fundamental do PT,  não cumprida.  Um bom exemplo desta politica é o orçamento da Agricultura : 90% para o agronegócio capitalista de exportação, e 10% para a pequena agricultura camponesa e os assentamentos,  que produzem os alimentos para a população :  esta é a formula algébrica do neo-liberalismo.  Estamos a muitos quilômetros do programa socialista e anti-capitalista do PT em 1990 !

– Em entrevista recente ao nosso site, o professor Ruy Fausto analisa o MST da seguinte maneira: “Tem um lado positivo no discurso mais recente deles, que são os temas ecológicos. Eles incorporaram os temas ecológicos, então estão contra a Monsanto e isso é positivo, mas eu não creio que eles tenham mudado ideologicamente. O esquema deles não é um esquema democrático. É o esquema do populismo-comunismo latino americano – sempre foi esse; e eu acho que não é este o caminho. É preciso abandonar esses esquemas, e marcar uma posição democrática. Se se quer romper com o capitalismo, é para caminhar na direção de uma sociedade democrática e não na de uma sociedade de tipo cubana. Se for para isso, não é progresso”. Como você enxerga esse tipo de crítica endereçada ao MST? De um modo mais amplo, como você avalia o papel dos movimentos sociais, especialmente o MST e o MTST, no contexto político brasileiro?

Não concordo de forma alguma com as criticas de meu velho amigo Ruy Fausto ao MST :  se trata de um movimento profundamente democrático,  por seus objetivos,  por seu funcionamento,  por seu espirito crítico.  Nada que ver com o “populismo” em que um chefe carismático vai “emancipar o povo”. Seu comunismo heterodoxo é próximo do de Che Guevara, que em seus últimos escritos, ao criticar o modelo soviético e o stalinismo, avançava a proposta de uma planificação democrática em que a própria população decidiria os objetivos do plano. O MST tem mostrado abertura para integrar novas demandas, como a igualdade entre homens e mulheres e, recentemente,  a questão ecológica, que é – e neste ponto estou de acordo com o amigo Ruy – fundamental para o futuro de qualquer proposta anticapitalista.  Movimentos como o MST e o MTST são atores decisivos para que possa haver, em algum momento do futuro,  uma mudança social profunda no Brasil.

 – E a América Latina? Você considera positivas as experiências de governos de esquerda na América Latina nos últimos anos? Caso considere, você acredita que o atual cenário político regional tende a aprofundá-las ou a retrocedê-las?

Existe uma grande diversidade de experiências de esquerda na América Latina. Algumas, como no Brasil ou no Chile, não superam os limites do social-liberalismo. Outras, como a Argentina, ficam a meio caminho, enquanto que na Venezuela, Bolívia e Equador existe um verdadeiro processo de ruptura com o neoliberalismo,  com a oligarquia dominante e com o imperialismo americano.  Este processo tem muitos limites e contradições, mas representa atualmente o que há de mais avançado em termos de experiências de esquerda no governo. É importante que estes governos tenham proclamado o “socialismo do século 21” como seu objetivo histórico, mas por enquanto continuam a respeitar os limites do capitalismo. Outra limitação importante é a questão ecológica: estes governos dependem quase que exclusivamente da exportação de energias fósseis – petróleo e gás – que são a causa da catastrófica mudança climática. No Equador houve uma experiência interessante, o Plano Parque Yasuni. Em uma ampla região florestal, habitada por comunidades indígenas,  deixar o petróleo debaixo do solo e exigir dos países ricos uma indenização. Infelizmente o governo de Raphael Correa resolveu abandonar o projeto e abrir o Parque às multinacionais…

O avanço ou retrocesso destes processos vai depender, antes de tudo, da capacidade das classes populares, dos trabalhadores, dos pobres,  dos indígenas,  dos jovens,  das mulheres,  de se  auto organizarem e imporem,  contra a lógica do capitalismo,  suas exigências.

– O avanço das políticas de austeridade na Europa para combater os efeitos da Crise de 2008 mostra a fragilidade da relação entre capitalismo e democracia. Tendo em vista que até a França, país de fortes instituições democráticas e de proteção social, também aderiu à austeridade mesmo sendo governada pelo Partido Socialista, o que você vislumbra para o projeto de União Europeia? Há espaço para a radicalização democrática?

Com efeito, a política dos governos europeus, praticamente sem exceção, tem pouco a ver com a democracia.  São os mercados financeiros, os banqueiros e as multinacionais que decidem o que deve ser feito e os governos aplicam, recusando-se categoricamente a consultar a população.  As políticas ditas de “austeridade” – na verdade “antisociedade” (antisociais) – tem agravado a crise e o desemprego levando ao desmantelamento da previdência social, da educação e da saúde.

A única esperança para uma radicalização democrática são os movimentos sociais, como os “Indignados”, as lutas sindicais, ecológicas e o surgimento de novas forças da esquerda radical.  É o caso, sobretudo na Grécia em que o partido Syriza, Coalizão da Esquerda Radical, já se tornou o primeiro partido do país (nas recentes eleições europeias), com 27% dos votos; ou então do novo partido-movimento “Podemos” da Espanha.

 – Na sua opinião, quais são os maiores desafios (teóricos e práticos ) para o marxismo neste século?  

A meu ver, o maior desafio para o marxismo no século 21 é romper com a ideologia burguesa do “Progresso” e com o culto economicista do “desenvolvimento das forças produtivas” assumindo plenamente a importância central da questão ecológica. O capitalismo com sua lógica de expansão destrutiva e ilimitada está levando o planeta para uma crise ecológica sem precedentes na história da humanidade, cuja manifestação mais perigosa é a mudança climática. Se permitirmos que continue o business as usual dos capitalistas por mais algumas décadas, o aquecimento global escapará de qualquer controle, colocando em perigo a própria sobrevivência dos humanos neste planeta (e até o momento, não temos outro para substituí-lo…).

O marxismo deverá, portanto, repensar o programa socialista incluindo a necessidade de uma mudança radical não só das relações de produção, mas também das próprias forças produtivas e do padrão de consumo – em outras palavras uma mudança do paradigma de civilização.  É o que alguns de nós chamamos de ecosocialismo.

 

Michael Löwy

Deixe sua opinião:

%d blogueiros gostam disto: